Sexta-feira, 7 de Outubro de 2011
Elogio ao teu olhar; e outras coisas que tal.


Ás vezes, enquanto envolvido na rotina, vagueando no esforço de a enfrentar, sinto que a cada dia através de mim ido, a alma se me enfraquece na dolorosa proporção da sua ausência (o teu olhar). E se a esta apatia que me persegue não me entrego, é somente porque negreja, por entre a intensidade esbatida, das cores que ladeiam o caminho da minha existência, a morna paz do seu suave mistério.

Outrora, já da Lua, às sombras celestes, da tranquilidade chamaram – isso não eram mais do que profecias aos que, por nascer aguardavam, teus olhos: e quando eles me tocam, quando atravesso o seu pátio (do teu olhar), onde paira, exalado das pétalas nuas que o preenchem, o perfume fresco, desaguado, breve, do teu espírito incandescente, renasço. Como se o Outono se desenrolasse em sentido inverso e do solo se elevassem aos galhos das árvores, as folhas enverdecidas durante a sua subida - e tudo isso espelhando o que sucede com a decadência sem nome que me jaz nos cantos esquecidos da alma. Como se o Sol brotasse d’uma crisálida inseminada por eles (o teu olhar), e houvesse luz do dia a irradiar o meu ser. Porque os desertos que despovoam este mundo não passam de locais onde o secreto rumor das tuas pestanas não se fez sentir. Porque as florestas e os recifes pulsantes, não são mais que a prova viva do intenso fulgor que tímido mas apaixonadamente os povoa (os teus olhos).

E eu noctívago em todas as madrugadas, em todas as noites exóticas que o Verão acalenta, em toda a sua sombra benigna, sob a qual me sentia seguro e desperto – e isso nada mais que os teus olhos vestindo o céu; e o rasto de galáxia nele derramado: o tremeluzir jovem e eterno, o  cintilar das tuas íris.
E acima o Universo, separado entre a luz astral e os tons de mistério e de infinito, que plenos assentam no espaço entre as esferas orbitantes . A denunciarem a verdade que mim dentro ecoa, no desfiladeiro electrizado e tumultuoso do meu hemisfério direito:
- Existe o teu olhar e…por acréscimo, tudo o resto.

Abraço: somente uma palavra. E não podendo perpassar os meus braços o ciberespaço que nos separa (une). Abraço em palavras, mais que o teu corpo, o paraíso em gente (alma tua), por ele muralhado.

Perfura-me, o medo de não ser compreendido. Por isso calo muito do que digo e outro tanto não o falo. Contudo é então que escrevo; e vivo, para não me silenciar…


música: le moulin - yann tiersen

Alquimizado por: Pedro Tortuga às 04:01
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